Quase um sonho

Para ler ouvindo a playlist de O Fabuloso Destino de Amélie Poulain.

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A tarde cinza se colore enquanto embalo os pés por debaixo da mesa, ao som da valsa francesa antiguinha.

Num instante estou aqui e no seguinte, viajo a vielas pelas quais nunca andei e sigo a dançar, pular e agitar a saia de um vestido que, nesta vida, nunca usei. Sou agora dançarina, camponesa, e ando a sorrir pelas ruas.

Bailo mais leve do que meus pés permitem, mas na imaginação eles não conhecem limites.

Ali permaneço por três ou quatro minutos, e adentro agora um salão luxuosamente decorado. Meu traje não é mais o mesmo, sou pianista que dedilha suavemente, com gestos hábeis e dedos finos que correm pelo instrumento seguros e dispersos como quem dança a mesma música pela milésima vez. A luz do sol se filtra através das árvores para então penetrar a enorme janela envidraçada a meu lado, e o tempo parece parar.

Vou e volto à viela e à vila, a um mercado antigo repleto de frutos cheirosos e pessoas tagarelando ou andando apressadamente, cães que vagueiam, crianças a brincar pelo chão.

Lá estou eu, sem nunca nesta vida ter estado, apenas transportada pela música. E quando ela pára, volto até onde realmente me encontro, uma mesa marrom de escritório com um computador à minha frente, em uma rua barulhenta, numa tarde cinza.

Clico no play novamente e lá me vou, de volta à viela, passos faceiros em uma dança nunca antes dançada.

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2 comentários sobre “Quase um sonho

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