Os Outros

Olá!

Hoje é dia de crônica da Martha Medeiros novamente. Essa é uma das minhas crônicas favoritas entre as que ela escreveu (se não A favorita). Lembro de ter lido há muuuito tempo, e não ter mais esquecido.

 

Os Outros

Martha Medeiros

É admirável o esforço que os meios de comunicação estão fazendo para conscientizar a sociedade sobre a importância de proteger as crianças. Mas, pra ser franca, quando eu era pequena não tinha medo nenhum de bicho-papão, mula-sem-cabeça ou de bruxa malvada. Quem me aterrorizava era outro tipo de monstro. Eles atacavam em bando. Chamavam-se os Outros.

Nada podia ser mais danoso que os Outros. As crianças acordavam de manhã já pensando neles. Quer dizer, as crianças não, as mamães.

Era com os Outros que elas nos ameaçavam caso não nos comportássemos direito. Se não estudássemos, os Outros nos chamariam de burros. Se não fôssemos amigos de toda classe, os Outros nos apelidariam de bicho-do-mato. Se não emprestássemos nossos brinquedos, os Outros nunca mais brincariam conosco.

E o pior é que as mães não mantinham lógica do seu pensamento. Mas mãe, todo mundo dorme na casa dos amigos!?!!?? E eu lá quero saber dos Outros? Só me interessa você!! Era de pirar a cabeça de qualquer um. Não víamos à hora de crescer para nos vermos livres daquela perseguição.

Veio a adolescência, e que desespero: descobrimos que os Outros estavam mais fortes do que nunca, ávidos por liquidar com nossa reputação.

Você vai à festa com esta calça furada? O que os Outros vão dizer? Filha minha não viaja sozinha com o namorado, não vou deixar que vire comentário na boca dos Outros. Não tinha escapatória: aos poucos fomos descobrindo que os Outros habitavam o planeta inteiro, estavam de olho em todas as nossas ações, prontos para criticar nossas atitudes e ferrar com nossa felicidade.

Hoje eles já não nos assustam tanto. Passamos por poucas e boas e, no final das contas, a opinião deles não mudou o rumo da nossa história. Mas ninguém em sã consciência pode se considerar totalmente indiferente a eles. Os Outros ainda dizem horrores de nós. Ainda têm o poder de nos etiquetar, de nos estigmatizar. A gente bem que tenta não levá-los a sério, mas sempre que bate uma vontade de entregar os pontos ou de chorar no meio de uma discussão, pensamos: Não vou dar este gostinho para os Outros…

Está para existir monstro mais funesto do que aquele que poda nossa liberdade.

Como eu disse, já faz um tempo(ão) que li essa crônica. Mas adoro a maneira como a Martha Medeiros tratou esse tema que, vocês provavelmente concordarão, continua (infelizmente) bem atual.

Felizmente, ela tem razão: ‘ Passamos por poucas e boas e, no final das contas, a opinião deles não mudou o rumo da nossa história’. Ou quem sabe tenha mudado, e tenhamos conseguido nos libertar um pouco desse monstrengo e graças a isso, viver mais felizes e conforme nossos próprios valores.

 

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